Presas para que te quero
20/06/2009
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Vampiros.
Não foi a toa que o Papo na Estante, podcast sobre literatura fantástica, decidiu dedicar duas edições aos sanguessugas. Participei, apesar de alguns poderem ficar surpresos com isso.
Desse vampiro eu tinha medo.
Afinal, quem me conhece – e até quem nem faz ideia de quem eu sou – sabe que eu estou absolutamente saturada de vampiros. Tive minha overdose lá pela década de 1990, quando lia Anne Rice, jogava Vampiro: A Máscara/Ravenloft e comprava até livros teóricos sobre o assunto. Porém, chegou um momento em que simplesmente… encheu o saco. (Blame it on ‘Crônica do Ladrão de Corpos’)
Então, não se pode dizer que estou totalmente feliz e satisfeita com a onda vampírica, que anda crescendo a ponto de se tornar um tsunami. Para Ana, a leitora, todos esses vampiros podiam sufocar no seu próprio sangue e morrer de vez. Agora, a escritora-ativista-produtora-editora-organizadora em mim acompanha essa movimentação com muito interesse. Afinal, é sempre algo notável quando a literatura fantástica em sua forma mais pura consegue se destacar nas listas de mais vendidos.
Mas por favor, não considerem que Crepúsculo seja o ressurgimento do mito do vampiro. O jogo de Mark Rein o Hagen não foi, nem as ‘Crônicas Vampirescas’. Mesmo Drácula não fez ressurgir nada. Sim, até creio que deram uma nova roupagem.
Só que os dentuços sempre estiveram por aí. De tal forma que se antropóloga eu fosse, diria ser um mitema. A humanidade sempre teve fascínio com certos assuntos: imortalidade, juventude eterna, crueldade, beleza, sensualidade. Muitos dos mitos que deram origem – ou que hoje nós associamos – aos vampiros tem a ver com alguns desses aspectos, desde os súcubos judaicos até as strix latinas.
Mesmo antes de Bram Stocker esculpir uma imagem mais a nosso gosto do sugador de energia/sangue, nossos antepassados europeus viviam com medo de criaturas noturnas. Vejam por exemplo essa reportagem sobre um vampiro no século XVI.
Sem comentários.
O estouro que o mito teve com a Anne Rice – estouro esse que nunca realmente sumiu, só diminuiu pouco – solidificou de vez o vampiro como uma criatura pop. E cada vez mais, ao invés do medo que os pobres cristãos do século XVI sentiam ao vê-lo, os caçadores noturnos acabam exercendo um grande fascínio – um poder de sedução que coloca até galãs estabelecidos no chinelo. (Isso não quer dizer que qualquer um fica bem como vampiro, ok, Antonio Banderas?)
Cada vez mais você vê jovens, adolescentes e senhouras nem tão jovens assim encantadas, doidas para serem mordidas. E o mercado literário acompanha isso.
A mistura ’sangue-com-açucar’ – ótimo epíteto dado pelo jornalista, crítico e escritor Antonio Luiz M. da Costa para o livro da brasileira Nazarethe Fonseca – cada vez se torna mais popular. Vocês acham que ‘Crepusculo-Lua Nova-Eclipse-Amanhecer-Luscofusco’ é exemplar único?
Rá.
Nem vou falar da série de Charlane Harris, que deu origem a série de tv ‘True Blood’. Há uma infinidade de títulos – alguns classificados como ‘dark fantasy’, outros como fantasia urbana e outros são ‘romances paranormais’, o que engloba todo o livro em que gente e seres sobrenaturais (fantasmas, vampiros, lobisomens) se apaixona/relaciona.
Martha Argel, André Vianco e Giulia Moon.
No Brasil, os vampiros não nos são nada estranhos. O livro da série Necropóle dedicado ao tema é um dos mais vendidos da coleção. Gerson Lodi-Ribeiro criou um vampiro calcado em mitos americanos na sua série do Vampiro de Nova Holanda. E cada vez mais, tem aparecido livros vampirescos de autores brasileiros: André Vianco, Giulia Moon e Martha Argel são bons exemplos. Enquanto o Vianco explora um lado mais ‘testosterona’ dos dentuços, as duas escritores tratam o tema com lirismo, mas sem cair no romance mais adocicado.


